sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A ÉTICA DA ALTERIDADE NA PERSPECTIVA CRISTÃ: A PARÁBOLA DO "BOM SAMARITANO" PARTE V




Conforme postulamos anteriormente, ao estabelecer o samaritano, como o heróico personagem desta parábola, Jesus rompeu com o modelo ético-teológico vigente, que prezava pelo ódio ao diferente e limitava a prática de responsabilidade apenas ao semelhante.


Tal como propõe à ética da alteridade em Emmanuel Levinas, o samaritano, em uma atitude de solidariedade altruísta, se identificou com o rosto nu e pobre do indigente, e de forma desinteressada e gratuita demonstrou amor e misericórdia para com o outro, cuidando de suas feridas e conduzindo-o a um lugar seguro.

Segundo o filósofo brasileiro Nélio V. de Melo, a proposta levinasiana de um
Ao deparar-se com o outro, o samaritano foi movido por um intenso sentimento de compaixão: “Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele” . A palavra grega traduzida por "compadeceu" expressa a idéia de um sentimento de natureza interior, de “ser movido como que pelas entranhas” .
Comentaristas como Rienecker e Rogers indicam que esta é a palavra grega que expressa de forma mais intensa o sentimento de compaixão . Tal expressão ocorre 12 vezes ao longo da literatura neotestamentária, e com exceção da ocorrência nesta parábola, ela é normalmente utilizada para se referir ao sentimento que Jesus possuía em relação ao povo desamparado .

O clamor por responsabilidade, que irrompeu do rosto em plena inópia do indigente, conduziu o samaritano a uma ortopraxia que o reafirmou como um “ser-para-o-outro”. Frente à face do outro, o samaritano foi interpelado a responder não apenas por si próprio, mas foi, anteriormente, conclamado a assumir uma responsabilidade indeclinável pelo outro.

A ortopraxia do samaritano é uma expressão da máxima da alteridade levinasiana:

Entendo responsabilidade como responsabilidade pelo Outro, por aquilo que não é feito meu, ou por aquilo que nem sequer me importa; ou o que precisamente e realmente me importa é enfrentado por mim como face .


Frente ao rosto do necessitado, o samaritano, atentou para a penúria do indigente. Conforme Levinas: “Ouvir a sua miséria que clama justiça não consiste em representar-se uma imagem, mas em colocar-se como responsável [...]” . Desta forma, o samaritano atentou para a situação de penúria do indigente responsabilizando-se por aquilo que não era feito seu.

O samaritano assumiu, nesta narrativa, o papel de agente do socorro para com o outro. Sua responsabilidade para com o indigente iniciou-se na prática de primeiros socorros: “E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho [...]” . Nesta época o óleo e o vinho eram utilizados, também, como recursos medicinais. Enquanto este era utilizado de forma anticéptica e desinfetante para limpar as feridas, aquele era utilizado como uma espécie de pomada para aliviar a dor .

Após prestar os primeiros socorros, o samaritano tomou a homem ferido e: “[...] colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele” . Durante o resto do percurso, o indigente, assumiu o lugar na cavalgadura do animal, que pertencia ao samaritano. Este em uma atitude de doação foi capaz de renunciar seu lugar de direito para assumir o papel de servo de outrem. Mediante o rosto desnudo do indigente, o samaritano foi convocado a sacrificar o seu bem pelo bem do outro.

Ao chegar à hospedaria, o samaritano não considerou que sua responsabilidade se esgotara: “No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu te indenizarei quando voltar” . Este versículo demonstra a radicalidade com que o samaritano assumiu a responsabilidade. Este, assegurando-se de que o indigente seria bem cuidado e não sofreria prejuízo algum, investiu uma quantia significativa a dois dias de trabalho de um trabalhador mediano , o que garantiria ao indigente longo tempo de hospedagem e alimentação . Não o bastante, o samaritano assumiu um radical compromisso prometendo ao hospedeiro ressarcir-lhe todos os gastos excedentes do indigente.

Por fim, através desta hábil gesta, Jesus interpela novamente seu inquisidor: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” Sem mencionar o fato do heróico protagonista da parábola ser um samaritano, o intérprete da Lei responde: “O que usou de misericórdia para com ele”. De forma imperativa, Jesus põe fim a este intrigante debate asseverando: “Vai e procede tu de igual modo”. Desta forma, Jesus afirma que o doutor da Lei deveria proceder assumindo uma postura vitalícia de responsabilidade radical pelo outro.

A parábola do “Bom Samaritano” apresenta um conceito dinâmico de relação ética. A pergunta “Quem é o próximo?” ganha um novo prisma: “De quem é necessário se tornar próximo?” Segundo Joachim Jeremias:

Enquanto que o escriba no v. 29 perguntara pelo objeto do amor (a quem eu devo tratar como próximo?), Jesus no v. 36 pergunta pelo sujeito do amor (quem agiu como próximo?). O escriba pensa a partir de si, quando pergunta: Onde está o limite do meu dever (v.29)? Jesus lhe diz: Pensa a partir daquele que sofreu a necessidade, coloca-te na sua situação, reflete contigo mesmo: quem espera ajuda de mim (v. 36)? Então verás que não há nenhum limite para o mandamento do amor .

Destarte, Jesus rompe com o modelo ético-teológico que dominava a cenário político, social e religioso de sua época. O individualismo, bem como, os preconceitos étnicos, nacionais, tribais e religiosos presente neste modelo, foram substituídos por uma proposta ético-teológica de negação total a quaisquer formas de solipsismo, estabelecendo o cuidado para com o outro como uma ação responsiva à revelação divina.

1 comentários:

Chopan disse...

É de se chocar em frente a uma realidade não existente no minimo nos templos religiosos de hj, grande reflexão

Postar um comentário